11/03/09

ENTREVISTA: JOSÉ MIGUEL WISNIK, para o Deutshe Welle.


Trazemos, adiante,entrevista com JOSÉ MIGUEL WISNIK, ao jornal alemão Deutsche Welle, concedida meses antes do lançamento daquela que talvez mereça ser  considerada a melhor obra sobre futebol já publicada no país, o livro "VENENO REMÉDIO: O FUTEBOL E O BRASIL" . Wisnik é professor universitário, poeta,  músico, compositor e autor de vários livros. Ainda falaremos muito sobre a  obra, neste espaço.  A reportagem é de Soraia Vilela.    

“Veneno-remédio: O futebol e o Brasil"

EM BERLIM, José Miguel Wisnik fala em entrevista à DW-WORLD sobre os resquícios de poesia no futebol brasileiro, chama as Copas do Mundo de acerto de contas do país consigo mesmo e reafirma as singularidades de cada cultura no universo globalizado do esporte.Ainda escrevendo os últimos capítulos do livro Veneno-remédio: O futebol e o Brasil, que deverá ser lançado no segundo semestre deste ano, o crítico, ensaísta e compositor José Miguel Wisnik lembra a importância do futebol na memória coletiva brasileira, discorre sobre a "gratuidade do riso" no Brasil e cita Gilberto Freyre, ao lembrar que teóricos do último século acreditavam que o futebol e a música poderiam sublimar esteticamente a violência no país.

DW-WORLD: Você veio a Berlim falar sobre a prosa e a poesia do futebol, partindo da referência a um ensaio do cineasta Pier Paolo Pasolini, de 1971. É possível dizer que o futebol brasileiro ainda sobrevive na categoria do poético? Ou o futebol-arte se tornou, em todo o mundo, anacrônico e ultrapassado?                                                       

WISNIK: O futebol mudou muito desde 1971, quando Pasolini escreveu este texto. Não há mais uma clara distinção entre prosa e poesia como ele viu na Copa de 70. Embora a idéia de um futebol artístico, improvisado, com muitos dribles e gols, que são verdadeiras pinturas, tenha deixado de ser comum. Atualmente os espaços são muito disputados, e o futebol passou a se parecer mais com uma partida de xadrez, talvez como uma prosa ensaística, à procura da poesia. No futebol brasileiro, temos muitos jogadores que jogam com um estilo poético: o Ronaldinho Gaúcho, no Barcelona, o Robinho. Ao mesmo tempo, o Parreira tem uma concepção prosaica do futebol. 

DW-WORLD: Você fala em uma tendência no Brasil de fazer com que as agruras da realidade passem necessariamente pelo princípio do prazer. Aos olhos de estrangeiros, este comportamento é associado a uma euforia quase infantil. Ri-se, muitas vezes, da própria desgraça. O Ronaldinho, em campo, costuma sorrir após perder uma oportunidade de gol. Quais são as razões histórico-culturais desta "gratuidade do riso", tão comum no Brasil?

WISNIK: De fato, é uma espécie de riso ambivalente, que não se sabe bem como interpretar – como alguém ri de uma perda? Mas acho que o futebol brasileiro só chegou a ser o que é porque relativizou a idéia do resultado a qualquer preço, do jogo que se destina a chegar a um certo número, que, mesmo mínimo, represente uma vitória.  A cultura de rua no Brasil é baseada no futebol como brinquedo, que se joga independente de qualquer resultado. Toda criança brasileira joga na rua, em praias, campos, como quem se diverte com a bola, ao invés de procurar o gol. Existe uma cultura extensiva desse tipo de prática lúdica.  É possível não tomar o resultado tão a sério. Portanto, no mundo onde se tornou muito difícil a gratuidade, tudo tem um preço, são justamente essas atitudes brasileiras no futebol e na música que provam que as atividades humanas não são todas redutíveis ao resultado, ao efeito final, ao valor de mercado.

DW-WORLD: Você diz que o futebol é a maneira pela qual a nação ritualiza um "acerto de contas consigo mesma". As Copas do Mundo seriam a cena principal deste acerto. Será que elas não são, antes de tudo, um acerto de contas com o Outro, com a hegemonia dos que ditam regras?

WISNIK: Não há dúvida que o futebol representa um desrecalque para um povo periférico, colonizado, que encontra ali uma maneira de afirmar o seu valor. O futebol é a manifestação da cultura que mais deu lugar a isso.  Mesmo nos esportes olímpicos, a lista final das medalhas contempla claramente as maiores economias. Em matéria de esporte coletivo, o futebol é o que mais inverte essa relação. Ou seja, nações poderosas econômica e politicamente nem sempre vencem nações pós-coloniais e periféricas. O fato de que o futebol tenha esse significado é muito singular, especial. É isso que faz dele um fenômeno tão mundial, pois culturas muito diferentes se expressam e ganham lugar. Onde é que a África, além da música, encontra uma expressão no cenário mundial, como nas Copas do Mundo? O futebol tem esse componente: de afirmação perante nações hegemônicas.  O próprio Pasolini, quando escreveu seu ensaio, dizia que a vitória do futebol-poesia era um gol cultural: um futebol que podia consagrar o Brasil perante a Itália ou a Inglaterra ou a Alemanha.  Na relação do Brasil consigo mesmo, existe uma questão de identidade dos brasileiros na relação com o jogo. Os brasileiros olham sua seleção como se ela fosse completamente vencedora ou inteiramente desvalorizada. É muito comum que passem de um entusiasmo completo para um desprezo total.  Neste sentido é que digo que o Brasil, nas Copas, se defronta consigo mesmo. É quando ele se olha no espelho e vai ver ou não ver a imagem que idealiza. Há uma espécie de ego ideal que o Brasil quer espelhar nas Copas e que, às vezes, é ilusório. Há aí uma luta entre a fantasia de si mesmo e a capacidade de se realizar.

DW-WORLD:  Você acredita que a miscigenação da seleção brasileira, desde a equipe de 1938, serviu para aplainar o racismo? Ou ao contrário, essa imagem do futebol mestiço serve para escamotear a questão racial?

WISNIK: Ao mostrar que pobres, descendentes de escravos, são grandes realizadores daquilo que mais fortemente representa a imagem do país, o futebol dá um golpe na idéia de que estes pobres e pretos sejam incapazes de qualquer coisa. É a mostra de que eles são capazes de realizar um desejo coletivo, de produzir uma forte identificação. Isso é um fator extremamente positivo do ponto de vista cultural e simbólico, o que, na vida cotidiana, convive com todos aqueles que são desqualificados por justamente não terem tido a possibilidade de se expressar. No Brasil, negros e mestiços podem ser vistos como símbolos nacionais de todos e, ao mesmo tempo, não se afirmam esses direitos raciais, que continuam sendo usurpados de tantas formas. Essa é uma conquista política, que é necessária, mas não se deve tomar a idéia de que o futebol está aí para encobrir isso. Ele está aí para revelar aquilo que é necessário generalizar-se: a realização que negros e mulatos alcançam no futebol tem que ser possível em todos os níveis. Como acontece também na música. E não se esqueça de que o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis, foi um mulato pobre.

DW-WORLD:  O Artur Friedenreich, pioneiro do futebol brasileiro, também era um mulato, filho de um alemão e uma negra brasileira. Ele, no entanto, se disfarçava de não-mulato, esticava o cabelo. Você diz que ele é o protótipo do mulato que não é rejeitado nem aceito. Como isso se dá?

WISNIK: O Friedenreich começou na década de 1910, atuou nos anos 20 a 30, teve uma longa carreira, fez mais de mil gols. E era justamente o filho de um alemão com uma negra, uma trabalhadora pobre, lavadeira. Esse grande atacante veio a jogar na seleção brasileira numa época em que negros e mulatos não eram aceitos. Mas ele veio justamente porque tinha um pai alemão e disfarçava em campo que era mulato, procurava esconder, embora isso fosse evidente. Essa ambigüidade pode ser comparada ao Machado de Assis, que conseguiu, como jornalista, escritor e depois como presidente da Academia Brasileira de Letras, tornar-se amplamente reconhecido, sendo mulato. E curiosamente a obra dele, que trata dos mais agudos problemas sociais brasileiros, não tem a representação explícita de um mulato livre, como ele era. Ou seja, isso indica o quanto lhe custou ser mulato, ser capaz de ser admitido, mas ao mesmo tempo manter uma condição racial que fica escondida, escamoteada. Esse mulato que não é nem rejeitado, nem admitido, vive numa posição ambígua, que, no entanto, o faz um observador muito especial da vida social. Porque ele vê de um lugar que ninguém vê. Ele guarda uma espécie de segredo, detém uma espécie de chave do não-dito. Eu vejo isso no escritor e no jogador de futebol, nesses mulatos dos anos 10 e 20. Depois, a ascensão do mulato e do negro no futebol brasileiro transformou essa posição numa posição de orgulho. Embora rodeada de segregação, preconceito e exclusão. A partir dos anos 20 e 30, o futebol brasileiro se transformou, assim como a música, quando justamente negros e mulatos foram fundamentais por tudo o que de melhor o Brasil fez e onde ele melhor se reconhece.

DW-WORLD: Você usa a metáfora do "pontapé inicial na bola" como forma encontrada pelos ex-escravos para se emancipar. Este pontapé, porém, se dá sem um mínimo de agressão, rebeldia ou raiva, mas de forma lúdica, como um brinquedo. Essa espécie de benevolência "macunaímica" é também responsável pela lentidão das mudanças sociais no país?

WISNIK: Pode ser. De fato, os conflitos sociais no Brasil foram amaciados por uma cultura sincrética e por um paternalismo, que supõem relações de favor, que estão profundamente entranhadas numa relação escravista. Porque uma sociedade que tem como classes fundamentais proprietários e escravos faz com que homens livres, que não são nem proprietários nem escravos, vivam não com uma autonomia relativa que o mercado assalariado lhes daria, mas dependendo de favores. É uma troca de favor que permite que as posições sociais se comuniquem.  O chamado clientelismo é muito próprio do Brasil: você obter as coisas porque alguém lhe presta um favor pessoal. Isso amacia os conflitos, porque eles ficam baseados numa espécie de jogo de interesses, em que um concilia com o outro. Uma relação paternalista que se traduziu na política nas formas do populismo e que vigorou até o começo dos anos 60. Agora, eu não trocaria a sociedade brasileira por outras, onde o conflito é mais escancarado e ao mesmo tempo as relações são mais impermeáveis e não se formulam possibilidades de superação.

DW-WORLD: Você lembra Gilberto Freyre quando diz que se acreditava, na primeira metade do século passado, que o futebol poderia converter a violência e a desagregação social. Hoje, o futebol é parte integrante do imaginário nacional, mas a violência é real e cotidiana. A força lúdica do futebol "não deu conta" do Brasil?

WISNIK: Exatamente. É interessante ler o prefácio que o Gilberto Freyre fez para O negro no futebol brasileiro [livro de Mário Filho, publicado em 1947], onde ele dizia que o futebol havia superado a violência que se encontrava nos capoeiristas, nos possíveis marginais. Ele acreditava que o futebol sublimava e dava uma expressão artística a isso. Como se todas as contradições e os conflitos ganhassem uma via de superação pelo futebol e pela música. Hoje em dia, existe um futebol brasileiro pentacampeão do mundo e, ao mesmo tempo, as violências a que assistimos, inclusive nos últimos meses, são as mesmas que Gilberto Freyre dizia, no mesmo texto, que deixariam de existir.  Ele dizia que se não fosse essa sublimação estética da violência, do escravismo herdado, teríamos conflitos gravíssimos entre os morros e a polícia nas ruas, teríamos a malandragem como um eterno inconveniente, o oportunismo, o aproveitamento. Tudo isso o que vemos hoje presente no Brasil, com uma atualidade impressionante. Aquilo que Gilberto Freyre disse que deixaria de acontecer está acontecendo. Portanto, a passagem do veneno ao remédio não se faz do jeito como parecia a ele.  O problema é que a gente, por um lado, faz o elogio das virtudes festivas do Brasil, ou então faz uma espécie de negação corrosiva e crítica dos enganos que estão contidos nisso. Acho que essas duas posições deixam entrever a complexidade muito particular do Brasil: um país incapaz de dar saltos políticos e ao mesmo tempo capaz de importantes criações culturais.

DW-WORLD: Ao contrário do protótipo do jogador franzino ou "imperfeito" do passado, quando as pernas tortas do Garrincha até se tornaram uma lenda, os jogadores de hoje são atletas muito bem treinados. Ocorreu uma homogeneização do corpo através de modelos divulgados pela mídia?

WISNIK:  Essa é uma tendência mundial, à qual os esportes brasileiros se adaptaram. Desde a década de 70, foi aparecendo esse conceito de que o jogador tinha que ter um vigor atlético, seguir princípios dietéticos adequados. Toda uma série de princípios que estão ligados a um tipo de planejamento empresarial transposto para o campo. O Brasil se adaptou a isso. Os atletas que vieram para a Europa passaram a conviver com essa prática. Eles estão integrados dentro desta ordem.  Ao mesmo tempo, eles continuam trazendo um jeito de jogar que continua sendo diferente. De fato, existe uma estandardização, uma padronização, uma transnacionalização global, que destrói aquilo que foi decantado pelas culturas populares nacionais.  No entanto, no futebol, a gente continua vendo uma certa trama entre singularidades culturais e uma homogeneização mundial. A Copa mostra isso. Os jogadores brasileiros continuam vindo para a Europa e são buscados como portadores dessa diferença. Inequivocamente, porque ela existe.  Muito sintomático e importante é o fato de que nos Estados Unidos da América do Norte o futebol não tenha significado até hoje, porque os esportes que foram concebidos lá são outros. Os esportes modernos, disputados em espaços pavimentados, cobertos, onde o tempo competitivo é comprimido, traduzido em números e as estatísticas descrevem o jogo, são esportes diferentes do futebol.  Temos aí uma curiosa falha: não há aí um domínio da cultura da homogeneização, que é baseada em padrões norte-americanos e vigora para tudo, desde a calça jeans até a coca-cola. Ou seja, existem o jeans e a coca-cola para todos os parâmetros, mas no futebol isso não funcionou, o basquete não é o esporte mundial.  Existiu essa "falha" num esporte que implica em gratuidade. Ou seja, você pode ter um jogo zero a zero. Isso é impensável num lugar onde a mentalidade do resultado ou da competência é de tal forma dominante, que não se admite um esporte que trabalhe com essa margem de não-resultado. Por isso o futebol é estranho ao padrão hegemônico e, no entanto, se tornou o mais mundial dos esportes. Acho interessante essa falha no projeto totalizador.

Conheça um pouco mais sobre Wisnik clicando AQUI e AQUI TAMBÉM.Ilustração: Nesta montagem, instrumentista Wisnik "quebra tudo".

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