22/08/09

EDITORIAL TERCEIRIZADO - "A fala do Trono", por Juca Kfoury







Há textos trazem ao leitor a nítida impressão de que o autor encaixou um golpe preciso, sumulou um assunto, fez a análise definitiva. É o caso desta crônica. Juca faz, aqui, a síntese de um caráter: Quem é Ricardo Teixeira. Acompanhamos o relator.
Teixeira se ocupa mais em manter a CBF como um negócio, uma fonte de renda (não se discute o destino da receita), do que velar pelo desenvolvimento do esporte, pela qualificação e valorização dos campeonatos. Ele esquece ou desconhece que futebol é uma construção coletiva da nação, um bem cultural público. A CBF não tem compromisso com o futebol.

A FALA DO TRONO
Juca Kfoury

REI RICARDO I , e Único, chegou quase uma hora atrasado para falar aos seus súditos na segunda-feira passada.
Aquele que pagava a conta, o empresário Abílio Diniz, estava compreensivelmente contrariado e irritado. Mas fazer o quê?
O rei sempre tem justificativas para tudo, seja para se recusar a responder sobre a condenação que custou seus direitos políticos por três anos, seja para dizer que não foi bem entendido quando disse que não entraria dinheiro público nos estádios para a Copa-2014.
Franco, revelou que, ao escolher Dunga, estava convencido de que a seleção não precisava de um grande técnico, mas de um comandante, algo que o treinador certamente preferia não ter que ouvir, ainda mais agora, quando já convencido de que é um grande, extraordinário treinador.
E, dissimulado, o rei quis minimizar a responsabilidade da farra em Weggis no fracasso da seleção na última Copa do Mundo, ao ponderar que, depois da esbórnia na Suíça, houve tempo suficiente de treinamentos na Alemanha, esquecido de que foi na temporada no cantão que se estabeleceram os usos e costumes para a Copa de 2006, a ponto de a bagunça continuar até durante o seu desenrolar. E por falta de comando, não só do técnico que, então, revelou-se um banana mas também do principal comandante, ele mesmo, imperialmente desmoralizado pelo descompromisso dos jogadores.
Chega a ser engraçado como o número 1 de nosso futebol se exime de responsabilidades e ainda acha de criticar os clubes que, diga-se, merecem mesmo as críticas, principalmente pela subserviência que demonstram ao permitir que o que deveria ser meio tenha virado um fim em si mesmo, a CBF.
Rei Ricardo I, o Rico Terra, para os íntimos, imagina que a Casa Bandida do Futebol seja um paraíso e critica até seu cardiologista, tão leal que lhe deu um atestado médico para que não fosse depor na CPI do Futebol, o presidente do Fluminense, clube que mais troca técnicos no país, 17 vezes em menos de sete anos. Mas o rei mostrou uma nova face, associando-se a um grupo que vem crescendo no mundo do futebol, o dos que sofrem de complexo de perseguição.
Rico Terra se queixou de que existem os que fazem de bater nele o seu esporte predileto, como se fosse um são Sebastião, alvejado por flechas assassinas.
Ora, é muito simples deixar de ser alvo. Bastará ir curtir o que amealhou nestes últimos 20 anos e deixar o futebol em paz, como fez um ex-presidente da Federação Paulista de Futebol, nunca mais citado na imprensa séria de São Paulo.
Só que semelhante despedida nem passa por sua coroada cabeça, agora que é o todo-poderoso comandante da Copa do Mundo no Brasil, passaporte para o sonho final, a presidência da Fifa, lá na Suíça, em Zurique, pertinho de Weggis, para continuar a festa que alguns poucos jornalistas denunciavam como absurda, ele negava assim como seus bajuladores e agora, depois de ele mesmo ter diabolizado, começa a querer rever, tamanha a certeza de sua impunidade. A ponto de sair falando por aí, a torto e a direito. Direito?

Ilustração: Cenas do Gran Circo de Weggis, dias antes do início da Copa de 2006.

18/08/09

Livro: "Bola Fora", de Paulo Vinícius Coelho.


Bom seria se, ao ínvés de exportarmos jogadores de futebol, mantivéssemos nossos craques e vendêssemos, isso sim, pacotes de televisão dos nossos campeonatos mundo afora. Mas a lógica é outra, e desde os tempos do pau-brasil nós vendemos a matéria prima para os estrangeiros produzirem o espetáculo. Já que o negócio é cifra e futebol é negócio, nós perguntamos: quanto não renderia um campeonato nacional que contasse do com os jogadores brasileiros exportados nos últimos cinco anos? Tivéssemos capital, organização e credibilidade, cuidaríamos do espetáculo e não cumpriríamos o papel de vendedores de maçã-do-amor ou de animais de circo.
O jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, traz luz sobre o assunto, no livro "Bola Fora", publicado pela Panda Books e com ilustração de Marco Antônio Rodrigues. Veja a síntese da obra, feita pela editora:

"O autor reúne a história dos jogadores brasileiros que foram trabalhar em times no exterior. Embora hoje se fale muito da venda de jogadores para os times europeus, esse tipo de transação começou há muito tempo. O primeiro caso foi em 1914, quando Arnaldo Porta deixou Araraquara para jogar pelo Verona, na Itália. Com a bagagem de quem conhece como ninguém o mundo futebolístico, PVC revela fatos inéditos dessas transações milionárias, como a ida de Falcão para a Roma no anos 80, a de Pelé para os EUA em 1977, até chegar nos dias de hoje com a venda de Kaká e Neymar. O livro traz ainda tabelas com as negociações mais milionárias [SIC] e a lista dos jogadores de todos os tempos que atuaram ou atuam no mercado europeu."

Veja, ao lado, a capa e outras informações sobre o livro.Clique aqui para conhecer uma boa matéria sobre o livro e seu autor, publicada no portal IG

16/08/09

JORNALISMO ESPORTIVO: OS GOLS CONTRA DA FOLHA DE S.PAULO (2).

Comentamos, outro dia, o pouco caso com que a editoria de esportes da Folha de São Paulo trata os fatos. Na ocasião fizemos referência à opinião qualificada do ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva.
Mais uma vez o dever do ofício impôs ao ombudsman a tarefa de diagnosticar o surto de insanidade desinformativa que vez em sempre acomete aquela gente. O título da matéria veio do livro de Roberto DaMatta, cuja capa e mais informações você verá ao lado.
E para que não digam que pegamos pesado nas nossas considerações, vale fixar que o ombusmam apontou que a conduta errática não é episódica e "...os exemplos são inúmeros..." . Vejam:

A BOLA CORRE MAIS QUE OS HOMENS
Carlos Eduardo Lins da Silva

NO DOMINGO PASSADO, a reportagem de apresentação do jogo entre São Paulo e Goiás pelo Campeonato Brasileiro abria assim: "Mais do que tentar emplacar a quinta vitória seguida e engrenar de vez no Campeonato Brasileiro, o São Paulo entra em campo hoje contra o Goiás, às 18h30, no Morumbi, para atingir uma marca histórica: completar mil jogos na principal competição do país". A meu ver, a frase simboliza uma inversão de valores jornalísticos que vem se firmando na cobertura de esportes da Folha há muitos anos: considerar o que é interessante, mas complementar (retrospecto histórico, marcos estatísticos), mais importante do que o fundamental (o fato, o acontecimento).
Como seria possível o São Paulo não atingir a "marca histórica" dos mil jogos, exceto se não entrasse em campo para jogar? Como seria possível considerar mais importante simplesmente acabar a partida, e não vencê-la e, em consequência, atingir o grupo dos quatro primeiros do campeonato?
Claro que alguns eventos numéricos são mais importantes do que o evento. Por exemplo, todo mundo se lembra do milésimo gol de Pelé (registrado no documentário indicado ao fim deste texto) e quase ninguém do placar daquele jogo do Santos contra o Vasco, que ocorreu 40 anos atrás, no Dia da Bandeira (19 de novembro).
Faz quase um quarto de século que esta Folha resolveu dar ênfase às estatísticas na cobertura esportiva. A Redação pediu ao Datafolha para fazer a computação de tudo o que acontecia nas partidas. E o jornal publicava com destaque os resultados aferidos.
À época, o jornal foi ridicularizado pela maior parte da crônica esportiva por estar burocratizando o que devia ser apenas arte. Um pouco, aliás, como os técnicos de futebol eram acusados de fazer com a própria modalidade.
Acho que a Folha acertou ao apostar num tratamento mais frio, objetivo, comprovável do que até então era basicamente cuidado com impressionismo, paixão, palpite.
Mas erra quando usa a estatística como elemento superior ao que faz do futebol provavelmente seu maior atrativo, que é o fato de a bola correr mais do que os homens, como diz o título do livro recomendado abaixo, ou seja, a absoluta imprevisibilidade do que vai acontecer em campo a cada 90 minutos, apesar de todas as séries estatísticas e dos retrospectos numéricos.
Os exemplos são inúmeros. Vou citar só um. Em 25 de fevereiro, o jornal destacou que o São Caetano era o time no Campeonato Paulista que tinha jogado as partidas com menor número de gols, o que permitia antever um placar apertado para o jogo daquele dia contra o Palmeiras, que acabou sendo o mais dilatado da competição (4 a 3).
Como explica Roberto DaMatta, "o que conta no futebol não é bem a treinada vontade humana, mas a sensual e caprichosa bola. Bola que simboliza a gratuidade da vida e, de quebra, representa a sorte e o azar".

No rodapé do texto o ombudsman faz a indicação do filme "Pelé Eterno", de Anibal Massaini Neto, e do livro "A Bola Corre Mais que os Homens", de Roberto DaMatta.

14/08/09

EDITORIAL TERCEIRIZADO - "Sobrou até para o Jason", por Xico Sá



Inauguramos nesta postagem uma coluna que batizamos como Editorial Terceirizado. Uma coleção de textos com reflexões sobre temas atuais e que traduzam o pensamento deste blog.
Começamos com esta alegórica Carta aos Brasileiros F.C., um repto contra o proibicionismo.
Xico Sá faz antropologia na caixa de fósforos. E nós assinamos embaixo.


SOBROU ATÉ PARA O JASON
"Mais Javaris com humor
e menos Morumbis dominados e obedientes."

AMIGO TORCEDOR, amigo secador, na cidade proibida, agora sobrou para o Jason, personagem de "Sexta-Feira 13" reencarnado no outrora morto-vivo time do São Paulo. No futebol, quem não faz leva; na política e na segurança pública, quem não faz proíbe, fecha, prende e arrebenta. É proibido beber cerveja, levar bandeiras, batucadas... É proibido placa, luminoso, andar de fretado, fumar, é proibido morrer sem saúde na bucólica Piratininga.

Claro que, nesse embalo, sobraria para o Jason na metrópole que incorporou as proibições como obra de governo ou estratégia de polícia. Ora, deixem os são-paulinos celebrarem o retorno ao bom combate. O amigo, arquibaldo ou geraldino, tem que mostrar a cara para facilitar ser identificado como bandido. É o argumento dos homens, "teje preso", não se mexa. E se fossem policiar o carnaval de Veneza ou a folia do Recife... Melhor: se cuidassem do carnaval de Bezerros, onde 300 mil pessoas se vestem de papangus, inventivas máscaras do agreste pernambucano.

É, velho Oswald, a alegria era a prova dos noves, agora danou-se, o alcaide acaba com a festa e as demais autoridades passam o rodo. A onda é fechar, rebocar paredes de boates e botequins, expulsar as moças dos saudáveis rendez-vous, pôr a ordem que acham correta e ganhar votos e aplausos de certa fatia da classe média ou dos pobres em Cristo que já fecharam suas almas para balanço.

Os Jasons, assim como os tantos zumbis ludopédicos do Maraca, trazem a criancice aos adultos e empolgam mais as crianças. Ainda bem que estão soltos nos estádios e nas ruas os sacis do Beira-Rio, os papões da Curuzu, os galos das Gerais, os orixás da Bahia, os Hulks dos times clorofilados, as caveiras e as múmias gigantes de todas as praças etc. Como se não bastassem os desmanches e toda uma sorte de pilantragens, querem levar também o mínimo poder de fantasiar das torcidas. Se profissionalismo for isso, devolvam já a minha várzea. O que São Paulo precisa, para aguentar os proibidões em plantão permanente, é mais delírio e menos patrulha. Menos Caxias e mais personagens de "Pornopopéia" (ed. Objetiva), livraço do Reinaldo Moraes -com acento mesmo, ao contrário do que dita a reforma ortográfica.

A cidade proibida está jogando fora a melhor das vocações boêmias, destruindo o melhor dos parques de diversões noturnas. Mais Javaris com humor e menos Morumbis dominados e obedientes. Se isso é ser moderno, ódio eterno, como diz o cartaz de "Juventus Rumo a Tóquio", um curta de Andréa Kurachi , Helena Tahira e Rogério Zagallo. O filme conta a saga de uma derrota épica. Neste caso, o time da Mooca perdeu de 2 a 3 para a Linense, com um gol salvador ao crepúsculo, conquistando a Copa Federação Paulista em novembro de 2007. É disso que o futebol carece. Mais Jasons e tirações de onda em toda parte. Esse tipo de gozação inibe muito mais a violência do que a cara feia da polícia. O mesmo pode ser dito sobre a boemia de bares, ruas e calçadas, capaz de devolver a cidade a quem rala e se diverte. Pela desobediência civil e pelo direito sagrado de fantasiar a vida. Com ou sem máscara.


Xico Sá é colunista do Diário de Pernambuco e Folha de São Paulo e autor do blog O Carapuceiro.
O texto foi publicado na Folha de 14/08/09.

02/08/09

JORNALISMO ESPORTIVO: OS GOLS CONTRA DA FOLHA DE S.PAULO




Uma das melhores histórias sobre jornalismo e futebol é contada por Lima Duarte, e trata de uma audiência do vice-governador de São Paulo, Porfírio da Paz com o Presidente da República, Juscelino Kubitschek, em 1959. O governador Adhemar de Barros viajara para a Bolívia para tratar da importação do gás boliviano e o vice-governador, autor do hino do SPFC, um tricolor mais do que apaixonado, foi destacado para a missão governamental.
Iniciada a audiência, Juscelino pergunta ao vice-governador:
- E como está São Paulo, governador?
- Vai mal, Senhor Presidente. Perdemos para a Portuguesa de Desportos, dois a zero, um vexame...
Juscelino interrompe, com elegância:
- Estou falando do Estado, governador...
Porfírio, que só pensava em futebol, não entendeu o aparte e pensou que o presidente falava do estádio, ou seja, do Morumbi, ainda em construção. E lascou essa:
- Será inaugurado no ano que vem, num jogo contra o Benfica. Será o maior estádio particular do mundo!
Impaciente Juscelino tentou contornar:
- Excelência... Mas eu estou falando no Estado, no Estado de São Paulo!
- Olha Doutor Juscelino... Aqueles Mesquitas não estão nem aí com esportes... Eu prefiro mesmo é a Gazeta Esportiva...

Trazida para os dias de hoje e o Caderno de Esportes da Folha de São Paulo seria o jornal que comporia a ultima parte da piada. Resumidamente, o negócio do pessoal de Esportes é assim: colocam um espessante num fato secundário, adensam uma circunstância lateral, entortam uma estatística, e com isso enchem colunas inteiras com um nada informativo. O custo é alto, porque eles têm de se afastar de muita informação relevante para poder sustentar suas doidas lucubrações.
A falta de tino na construção de manchetes é marca registrada daquela redação. Vejam: “Beijo se torna defesa antidoping”. É o caso de um esportista flagrado em exame antidoping, com resultado positivo para cocaína. Fica-se a imaginar que a linha de defesa relatada na matéria teria se tornado prática vezeira, repetida. Entretanto, é só ler o restante do texto e o leitor descobre que a manchete duela com a notícia: A tal defesa é inédita, foi apresentada pela primeira vez na história e tem pouca ou nenhuma credibilidade, na análise de especialistas.
Mais um exemplo das caneladas da redação está na matéria sobre o jogo entre Palmeiras e Santo André, pelo Campeonato Brasileiro. A Folha reduziu o confronto a um embate entre Marcelinho Carioca, atleta do Santo André, de 34 anos, contra nada mais nada menos do que toda a equipe de Palestra Itália. Vejam a delirante síntese: “Palmeiras anula veterano e vence”. A ideia que a manchete passou foi a de que onze jogadores impuseram derrota a um homem. Seguindo nas suas miragens, a redação arremata, com destaque: “Equipe comandada por Jorginho supera Marcelinho”. Na sanha de dobrar a realidade a ilusões oníricas, e forçar epopéias, o jornal exalta “um duelo especial entre dois cerebrais”. Valoriza o derrotado, como que a trazer subliminares lições de moral, e conta que Marcelinho fez “lançamentos e passes milimétricos” de que nada adiantaram. Todo um mundo de representação para mostrar um jogo absolutamente normal, uma ordinária partida de futebol que terminou com resultado de um a zero, vitória do Palmeiras sobre o Marcelinho FC, digo, Santo André EC.
E um merecido cartão amarelo veio da Casa: O ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva comentou as derrapadas do Caderno. Veja a opinião do ombudsman:

“ESTE JORNAL demonstra ser adepto da 'teoria do grande homem', formulada em meados do século 19 pelo historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle. 'A história do mundo não é nada mais do que a biografia de grandes homens', dizia, em sua inabalável admiração por heróis, fossem reis, políticos, militares, poetas ou santos.
Assim, na quarta-feira, ao apresentar a final da Copa do Brasil, a manchete do caderno esportivo foi: 'Ronaldo tenta preencher lacuna em seu currículo'. Para a Folha, o jogo não era entre Corinthians e Internacional, mas entre Ronaldo e seu currículo.
O mais importante não era o time que foi rebaixado da elite do futebol brasileiro no ano passado estar para ganhar um de seus títulos mais importantes. Era se Ronaldo ia colocar na sua lista de conquistas a de um campeonato disputado no Brasil.
Não se dá muito valor ao papel do técnico, dos dirigentes, dos outros jogadores, da torcida, nem se dá atenção às circunstâncias históricas, econômicas, esportivas que levaram o Corinthians ao sucesso. Foi o ‘grande homem’ que venceu. O resto é resto.”

Cachorro faz mal a mulher”. Esta manchete, clássico caso do jornalismo ignaro e leviano, conta do caso de moça que comeu um cachorro quente numa barraquinha pouco confiável e teve de buscar socorro no hospital. Incrível, mas até para perto disso o Caderno de Esportes está se encaminhando. Pois ao tratar do acidente que vitimou Felipe Massa, na Hungria, o pessoal dos esportes, em confronto com o modo correto com que o jornal noticiou o fato na primeira página, investiu-se em mais uma gracinha, desta vez tenebrosa e talvez motivada por sentimento de morbidez. A manchete saiu assim: “Massa é nocauteado em plena pista”. Isso mesmo: o piloto foi nocauteado na pista do Circuito de Hungaroring.
Um milhão de verbos e adjetivos para definir a ação e o resultado de um trauma causado por uma peça acidentalmente desprendida de um carro a 300 km por hora, e a Folha vai buscar um termo prá lá de específico, uma palavra cuja utilização fora do boxe só se justifica quando muito, mas muito bem contextualizada. Tudo bem que nocaute passe a idéia de agravo, de lesão; isso não se discute. Mas é elementar que o termo está usualmente associado a um revés sofrido no plano de uma disputa. Nocaute jamais guarda relação com evento fortuito. Nocaute, isso é primário, comunica-se com derrota, significa um golpe contra o qual a vítima poderia, se tivesse qualidades, se opor. De uma só vez deselegante, apelativo e vulgar. Datena, Ratinho e Márcia Goldsmith (que nos perdoem os citados) têm seus iguais na imprensa escrita. A Folha não merece. Ninguém merece.
Manchetes desinformativas são presença constante. Os exemplos que trouxemos foram pinçados de matérias publicadas no curso de menos de um mês. O último esculacho, sobre o acidente de Felipe Massa, saiu na edição desta semana. Esquecem que são jornalistas, e não rapsodos.

A história de Lima Duarte foi contada no seu programa na Rádio Cultura AM de São Paulo, apresentado das cinco às seis da manhã. Talvez o melhor programa de rádio dos anos 80. Lima Duarte tem um excelente repertório com histórias de futebol.
A matéria sobre o beijo muito louco foi publicada no dia 14/07/09. O jogo entre Palmeiras e Santo André (Eles diriam: Onze homens contra um velho xerife) saiu no dia 19.07.09. A análise do ombudsman deu na edição do dia 05.07.09. Ilustração: cena de Lima Duarte no filme Boleiros, de Ugo Giorgetti.


02/07/09

A HISTÓRIA DE UM GOL E SEU AUTOR. TIQUINHO E O "GOL DO TETRA"



"Ele deu a força suficiente para a bola ir para dentro das redes.
Foi aquela festa. Ele era a festa."
(Erasmo Nicácio, técnico de futebol,
falando sobre Tiquinho e o gol mais
célebre da história do Ceará).

O GOL QUE VAMOS contar não se encerra na sua feitura ou na descrição dos lances que o precederam. Por uma série de contingências, seja por conta da sua importância competitiva (rendeu o tetracampeonato estadual ao Ceará), e pelo fato de sua narração ter caído no gosto da torcida, o gol ganhou vida própria, fez-se signo, hino, grito de guerra. Além dessa influência no plano coletivo, o gol marcou indelevelmente a vida de autor: sua entrega obsessiva àqueles segundos mágicos - que se reinventavam a cada vez que a narração radiofônica era reprisada - tornou o protagonista do fato, o artilheiro, em escravo da obra que criou, o gol.
Queremos falar do “Gol do Tetra”, assinalado nos minutos finais da decisão do Campeonato Cearense de 1978. Gol de Tiquinho. O tento rendeu a conquista do tetracampeonato estadual, pelo Ceará. Embora se conceda importância competitiva do gol (um título estadual enfileirado numa quadra), tal inegável mérito já teria se dissipado pelo tempo, dirá alguém com propriedade. Um gol construído com discrição plástica. Mais do que a beleza ou importância, uma sequência de acontecimentos tornou o “Gol do Tetra” uma uma entidade, um instituto.
Começou que o gol teve a felicidade de ser contado de modo épico e essencialmente correto pelo narrador Gomes Farias. Na voz de Gomes Farias o gol já nasceu histórico, legendário. Talvez um dos mais felizes resultados do casamento entre o futebol e o rádio.
Deu-se então que a narração recebeu franca e aberta acolhida por sua torcida. Como em um roteiro bem desenhado, mais tarde veio a notícia do desaparecimento do registro em vídeo do feito. O sentimento de falta, a sensação de perda da prova da conquista coletiva, fez com fosse valorizada mais e mais a narração, já indelevelmente retida na memória do torcedor, entoada por multidões e amplificada nos altofalantes do Castelão. Nunca um gol teve a capacidade de influir tanto e tanto na alma de uma torcida e no jeito de se gostar de um time. Qualquer cearense que acompanhe futebol, goste ou não goste do Ceará Sporting Club sabe o que é o “gol do tetra”. Anote o tempo verbal: O que "é", e não o que "foi". Um gol que se refaz, se reinventa e se reproduz quando vem à lembrança o time do Ceará.
Quem foi Tiquinho. Onofre Aluísio Batista nasceu no Rio de Janeiro em 1957. Iniciou sua carreira no dente de leite do Botafogo; aos dezesseis anos, em 1973, foi tricampeão estadual juvenil. Conquistou, pela seleção brasileira de novos, a Medalha de Ouro no Panamericano do México, em 1975. No ano seguinte, papou o Torneio Pré-Olímpico. Ganhou o Torneio Mundial Oficial Juvenil, em Croix, na França, quando o Botafogo venceu o Dynamo de Kiev por 2x0, com dois gols seus, feitos na prorrogação. Além de Botafogo e Ceará, jogou ainda no Rio Negro de Manaus, Treze de Campina Grande, Nacional de Manaus, Ferroviária de Araraquara e Fortaleza. Detém a primazia de ser o autor do primeiro gol no Estádio Almeidão, do Botafogo da Paraíba, em jogo vencido pelo homônimo carioca.
Graças ao bom relacionamento que reinava entre as diretorias do Ceará e do Botafogo, Tiquinho foi para o Mais Querido, mas sob empréstimo, já que o técnico da Estrela Solitária, Mario Zagallo se interessava em mantê-lo no General Severiano. O pai de Tiquinho, Sabará, destacou-se como jogador do Vasco da Gama e da Seleção Brasileira, nos anos 50 e 60. Diz-se que Tiquinho não seguiu melhor carreira no Botafogo por conta da sua estrutura franzina, condição física que lhe fez surgir o apelido, dado pelas enfermeiras que o assistiram no seu nascimento, uma gestação de sete meses. Foi um rápido e habilidoso ponta-esquerda.
Chegou ao Ceará no ano do Tetra, em 1978. Sua trajetória de feitos marcantes (gols na prorrogação, gol na estréia do Estádio Almeidão) o encaminhou para mais um marco: Um gol aos 44 do segundo tempo, contra o Fortaleza. Num momento em que o desejo do Tetracampeonato se esvaia, o gol da vitória o alçou à condição de herói.
O tempo passou e a curta carreira de jogador de futebol chegou ao fim para Tiquinho. Não guardou dinheiro e não soube enfrentar o fim da carreira. A falta da bola lhe causou desencanto. "Sair do palco é o pior momento do artista", expressão utilizada por Sérgio Redes em artigo sobre Tiquinho. Redes invoca frase de Tostão que sintetiza o que é abandonar os gramados, o jogo da bola: "Passei 21 anos longe do futebol. Fui estudar Medicina, mas quando meu inconsciente se manifestava eu sonhava que estava fazendo gols. Aprendi a conviver com o passado com o auxílio da psicanálise”. Vítima da prática comum de compartilhamento de seringas e agulhas entre jogadores de futebol, conduta vezeira até o início dos anos oitenta, Tiquinho contraiu hepatite C, doença que, associada ao consumo excessivo de álcool, lhe causou agravos sérios ao organismo. Entregou-se à bebida e agarrou-se com todas as forças ao brilho do feito histórico, fazendo do gol do tetra sua obsessão. Ao ponto de, após uma missa em homenagem ao Ceará, ter pedido o microfone para narrar o seu gol, ou melhor recitar o gol imortalizado na narração de Gomes Farias. Fazia isso incessantemente, sentia a necessidade imperiosa de vivenciar o feito, revivê-lo. Nicolau Araújo, do Jornal “O Povo”, de Fortaleza, em artigo que bem analisa o fenômeno Tiquinho, captou os seus sentimentos, quando o ex-atleta lhe confidenciou, enquanto recordava mais uma vez a façanha: “Ouço a torcida a todo instante [sussurrou o barulho da multidão]. Viu, é assim que acontece na minha cabeça”. De uma confissão assim, veio a síntese alcançada por Nicolau Araujo que resume a trajetória de um ídolo e seu gol: “Naquele instante entendi que a euforia do tetra agora lhe era assombração. Aprisionou-lhe a alma na eternidade de alguns segundos”.

Clique aqui para ver "Gol do Tetra", com narração de Gomes Farias.

A ficha técnica do jogo:
Ceará 1 x 0 Fortaleza
Estádio do Castelão. 20 de dezembro de 1978.
Árbitro: Luís Carlos Félix (RJ). Assistentes: Luís Vieira Vila Nova e Manuel Araújo (CE).
Ceará: Sérgio Gomes; Júlio, Artur, Pedro Basílio e Dodô; Edmar, Amilton Melo e Erasmo; Jangada, Ivanir e Tiquinho. Técnico: Moésio Gomes.
Fortaleza: Lulinha, Pepeta, Celso, Rodrigues Chevrolet e Dudé; Otávio Souto; Bibi, Lucinho e Netinho; Geraldino Saravá e Da Costa. Técnico: Moacir Menezes.Renda - R$ 1.576.803,00. Público - 47.340 pagantes.
Gol - Tiquinho, aos 44 do segundo tempo.

21/06/09

FUTEBOL E TECNOLOGIA. Um crônica de Carlos Heitor Cony


Elogio do carro de boi
Carlos Heitor Cony

"SÓ PARA DAR UM exemplo. Quando Napoleão viu que um motor a vapor podia ser melhor, mais rápido e mais seguro do que o vento, que até então impulsionava os navios, esnobou solenemente a tecnologia nascente, chamou o inventor de charlatão e ficou na dele. A Inglaterra logo se tornaria o império que dominaria os mares e destruiria o império napoleônico. Moral da história: não se deve pichar e muito menos recusar os avanços da técnica.
No jogo contra a seleção do Egito, o juiz ia deixando passar um pênalti, que só foi marcado com o auxílio de um quarto árbitro, que usou um recurso tecnológico -daí resultando a vitória do Brasil por 4 a 3. O advento do videoteipe já colocou os juízes de futebol em crise, sobretudo na marcação de impedimentos, que podem ser esclarecidos em cima do lance.
Pergunta: até que ponto a tecnologia mudará não as regras do jogo, mas a garantia de que elas estão sendo cumpridas em campo? Será um mal ou um bem? Questão em aberto. A tecnolatria, com a assombrosa colaboração da era digital, fará mesmo o mundo melhor?
Pulando de Napoleão e do jogo com o Egito: o recente desastre com o avião da Air France mostrou que o aparelho, na hora do acidente, estava totalmente entregue aos computadores, que recebiam e interpretavam informações erradas e, ao que parece, levaram os pilotos a um procedimento que matou mais de 200 pessoas.
No filme de Kubrick ("2001 - uma odisseia no espaço"), um supercomputador adquire sentimentos humanos (ciúme, medo de ser desligado) e interfere na ação programada. Hipótese: um sistema tecnologicamente avançado pode criar um computador humanizado a ponto de torcer pelo Corinthians ou pelo Flamengo e interferir no resultado de uma partida ou de um campeonato mundial."

05/06/09

SANTOS DE PELÉ E COMPANHIA: Um relato, por MIGUEL WISNIK

"NUM DIA QUALQUER DE 1957, vi numa gazeta esportiva a foto de um garoto que vinha se destacando no Santos. Em 1958 esse garoto se chamava Pelé e fazia parte da seleção brasileira, e a seleção brasileira, num domingo infinito que parece a própria final dos tempos, era campeã do mundo. Quando Pelé volta para a Vila Belmiro - o pequeno estádio do Santos -, já se podia ouvir pelo rádio, no momento em que a bola chegava a ele, um alarido diferente na platéia, um clamor excitado e ansioso, uma marca de sagração. Um acontecimento dessa potência nunca se dá sozinho, não só porque um time de futebol tem onze jogadores, como se sabe, mas porque um poder de imantação parece arrastar, por acaso e necessidade, o que está à sua volta. Entre outros, Pelé estava ao lado de craques: do volante Zito, do centroavante Pagão, do ponta-esquerda vicentino Pepe. E a eles se somaram o centroavante Coutinho (cujas tabelinhas com Pelé faziam dele um alter ego, uma soma e um plus, como se não bastasse, e deles uma dupla de heróis geminados, à maneira de certas narrativas míticas), Calvet, Dorval e Mengálvio, vindos do futebol gaúcho, e ainda o goleiro Gilmar, o central Mauro, além de Lima, o "coringa". Garantiu-se uma sobrevida desse período de glórias com a vinda do lateral direito Carlos Alberto, com as substituições posteriores de Laércio por Gilmar e deste por Cejas, de Mauro por Ramos Delgado, de Calvet por Orlando, de Pepe por Edu, de Zito por Clodoaldo, de Coutinho por Toninho Guerreiro, de Dorval por Manoel Maria.
(...)
A pequena Vila Belmiro, com sua calma e arejada atmosfera de província, que passei a freqüentar quase semanalmente, continha uma parte considerável da expressão máxima que o futebol já conheceu em qualquer tempo (como se pode dizer de maneira insuspeita, nesse caso raríssimo, sem medo de estar cometendo algum ato de prepotência).
O que se passou ali tem pouco registro em vídeo. Pelé é um ser de transição entre o futebol do rádio e o futebol da televisão, cujos teipes contribuíram para torná-Io o símbolo de alcance planetário que ele é. Mas, no que se tem para ver, falta a massa do dia-a-dia do futebol da Vila. Ali, aconteceu de tudo o que se pode e o que não se pode imaginar em matéria de criação futebolística. Como um fabuloso time que pôde jogar junto muito tempo, o que não acontece mais, a combinação dos talentos e da genialidade se decantou e quintessenciou fantasticamente. Um ou outro jogador mais limitado, como os laterais Dalmo ou Geraldino, resplandeciam como craques no corpo daquele time, induzidos por um ritmo de jogo que tanto podia arrebentar em onda branca quanto passear pelo campo como um tapete de espuma suave e implacável. A alvura do uniforme, por sinal, sem a poluição da logomarca do patrocinador, que não existia, em contraste com as peles negras de sua linha atacante (descontado Pepe, a ovelha branca), e só se deixando marcar pelo distintivo alvinegro no coração, era um ícone e um ideograma de alguma fórmula alquímica que tivesse sido alcançada ali."

(Trecho do livro VENENO REMÉDIO, de Miguel Wisnik - Veja a capa e outras informações na coluna ao lado. A gravura que ilustra o texto traz a Vila Belmiro no olhar do artista plástico Paulo Consentino. )

18/05/09

ENQUETE SOBRE O ONZE ESMERALDINO: O ESCOLHIDO FOI LEIVINHA, "O PRINCIPE"


PARA QUEM NÃO acompanhou, vamos resumir: A editora Maquinária criou uma coleção com livros que contam a história dos dez maiores jogadores de todos os tempos dos grandes times do futebol brasileiro. Foram lançados volumes sobre o Flamengo, Corinthians, Fluminense e Palmeiras, este lançado recentemente. Por conta deste fato, fizemos uma enquete para conhecer, na opinião dos leitores, quem seria o décimo primeiro nome do Palestra. O escolhido foi Leivinha.
Que relação de dez é conta solene, ninguém discute. Nem precisamos recordar os imemoriais 10 mandamentos. Também é imemorial, apesar dessa verdade não ter mais do que 60 anos, que o 10 significa excelência, coisa quase sagrada na numeração dos uniformes do futebol. Não temos dúvidas que nos tempos das lavadeiras, suas mãos cansadas discriminavam reverencialmente o esfregar e o torcer da camisa 10. Talvez por elas, pelo trabalho delas, um radialista batizou a dez como "a imaculada".
Se Aristóteles disse que "que tudo é um", esse um, esse todo, essa universalidade, no futebol, é o onze. E foi por isso que buscamos a opinião dos leitores para saber quem seria o decimo primeiro nome que formaria a suma esmeraldina.
Alguém poderá dizer que o blog estaria a cometer o desatino de criar um time com dois goleiros, já que dentre os escolhidos por Mauro Betting temos os nomes de um Oberdan Cattani e um Marcos. Mas questionamento, assim, da lista de Betting, não procede. Se esquecem que o jornalista, dentre outros sacrifícios, teve de glosar da honorável lista o nome de, nada mais, nada menos, Waldir de Moraes, o arqueiro da primeira Grande Academia.
Pois Leivinha foi o nome escolhido pelos leitores como o jogador que completa a lista dos onze mais importantes jogadores da história da Sociedade Esportiva Palmeiras.
João Leiva Filho integra a legião de ouro esmeraldina, na versão Tunel do Tempo, ao lado de Ademir da Guia, Djalma Santos, Dudu, Evair, Jair da Rosa Pinto, Julinho Botelho, Luís Pereira, Marcos, Oberdan Cattani e Waldemar Fiume.
Numa outra postagem traremos um apanhado da trajetória de Leivinha, contar dos seus tempos de Linense. o Elefante da Alta Noroeste, dos seus jantares com o Rei da Espanha, do polêmico lance em que Armando Marques, na final do Campeonato Paulista de 1971, invalidou um gol legítimo, numa cabeçada de técnica e estilo irreepreensíveis.
A enquete ficou assim:

Cesar
5%
Edmundo
35%
Leivinha
41%
Mazzola
11%
Servílio
15%

Ilustração: Leivinha, no começo dos anos 70, feliz da vida, ao lado de um tal de Ademir.

16/05/09

Uma resenha: "PASSE DE LETRA, de FLÁVIO CARNEIRO. Por Manuel da Costa Pinto


O texto abaixo foi publicado na coluna Rodapé Literário, da Folha de S. Paulo de 16/05/09, e faz resenha do livro "Passe de Letra", de Flávio Carneiro.
A imagem que ilustra esta postagem foi extraida do Blog Miúdos Criativos, de Portugal, e, lá, adorna poesia sobre futebol, escrita por de uma estudante ginasiana.

A MATÉRIA FUTEBOLÍSTICA DOS SONHOS

Manuel da Costa Pinto

É COMUM apaixonados por literatura e futebol se queixarem de haver poucos romances relevantes sobre o esporte no país pentacampeão do mundo.

Se isso é um fato, não significa que o futebol não tenha adquirido excelência na literatura brasileira. Sem patriotada, pode-se dizer que a melhor expressão do ludopédio (termo pomposo ironizado por Carlos Drummond de Andrade em "A Língua e o Fato") está na crônica, mais genuinamente brasileiro dos gêneros literários.

Há nisso justiça poética: assim como o esporte bretão ganhou graça e malícia em nossos campinhos de várzea, a crônica -forma derivada do "familiar essay", também de extração inglesa- se transformou no veículo ideal para captar o lirismo de uma realidade apequenada e periférica, a poesia das ruas, com suas gírias e seus palavrões.

Nossos grandes cronistas encontraram nos estádios uma tipologia ideal de personagens e uma metáfora do país -e Nelson Rodrigues tirou do trauma da derrota brasileira em 1950 uma expressão, "complexo de vira-latas", que não apenas define as razões daquele fracasso, mas resume um "ethos", um modo irônico de ver as coisas, de rir dos malogros e banalizar as proezas.

Caso mais raro, porém, são cronistas boleiros, aqueles que calçaram chuteiras a sério antes virarem escritores -como acontece com Flávio Carneiro, que acaba de lançar, pela Rocco, "Passe de Letra", reunindo crônicas escritas para o jornal literário "Rascunho", de Curitiba.

Não se trata exatamente de um livro sobre "Futebol e Literatura", como indica o subtítulo, mas de uma prosa literária feita a partir de memórias futebolísticas. Há textos que exploram o paralelo entre o enredo de um romance e o ritmo de uma partida, a figura do narrador e o locutor esportivo -com achados deliciosos, como o aforismo que define o "montinho artilheiro" como um lance que, ao introduzir um elemento de perturbação na ordem natural das coisas, equivale a "pura literatura".

Mas é nas reminiscências, às vezes amargas, que surgem as jogadas mais gingadas desse goiano botafoguense que um dia teve de optar entre o convite para jogar no Guarani (e isso pouco depois de o time de Campinas ter se sagrado campeão brasileiro!) e o projeto de tornar-se escritor e professor de literatura.

Lembranças de peladas épicas, do encontro em Cuba com um garoto que escolheu ser goleiro para não machucar a bola ou da gripe que o impediu de jogar a preliminar de uma partida do Santos de Pelé ("Aquele jogo é apenas um retrato na parede. Mas como dói") são momentos que mostram como o futebol também pode ser, como queria William Shakespeare, a matéria de que são feitos os sonhos.

08/04/09

DATAS IMPORTANTES DO CALENDÁRIO DE 2009

AS DATAS cheias nos oferecem justos motivos para homenagens e evocação. As contas fechadas conferem ao fato uma magia de grandiosidade, se comparadas com uma data não arredondada. A lembrança e  a reflexão dão lustros à vida e tornam célebre o cotidiano.  E marcos expressos nas sínteses numerais das datas célebres, como década, centenário, milênio, miríade, etc,  chamam ao brinde, clamam por discursos laudatórios e bailes de gala. Adiante, uma lista de acontecimentos dignos de louvor, comemorados neste 2009. As informações foram obtidas no  Ponteiro,  um repósitório  cuja torrente de informações  lhe faz cair bem o epíteto de Portal das Datas.


HÁ 120 ANOS:

18/05/1889   Fundação da Dansk Boldspil-Union (DBU), Federação Dinamarquesa de Futebol


HÁ 110 ANOS:

08/01/1899    Primeiro encontro internacional de futebol, em  Praga, Tchecoslováquia

13/05/1899    Criação do Esporte Clube Vitória (Salvador - BA)

29/11/1899    Fundação do Barcelona, na grafia original,  “Foot Ball Club Barcelona”


HÁ 100 ANOS:

03/01/1909    Fundação do Sport Club Penedense (AL)

04/04/1909   Fundação do Internacional de Porto Alegre

17/05/1909    Fundação do Paulista Futebol Clube (Jundiaí - SP)

18/07/1909    O Grêmio vence (10 x 0) o Internacional no 1º grenal

03/10/1909    Fundação do Bologna Football Club

12/10/1909    Criação do Coritiba Foot Ball Club (Curitiba - PR)

07/10/1909    Fundação do Club Sportivo Sergipe (SE)

01/11/1909    Nascimento de Vicente Ítalo Feola, técnico do São Paulo e da  seleção brasileira na Copa de 1958


HÁ 95 ANOS:

02/06/1914  Fundação do Ceará Sporting  Club


HÁ 90 ANOS:

16/02/1919    Fundação do Nacional Atlético Clube

29/05/1919    O Brasil vence o Uruguai e conquista o seu primeiro título, o de Campeão da Copa América. A façanha foi homenageada por Pixinguinha e Benedito Lacerda com música cujo título retrata o resultado do jogo decisivo: "1 x 0"    (clique e ouça)


08/06/1919    Fundação do Rio Branco Football Club, do Acre

15/06/1919    Fundação do Central Sport Club, de Caruaru, Pernambuco


HÁ 80 ANOS:

27/02/1929    Nascimento de Djalma Santos, craque da Portuguesa de Desportos, Palmeiras, Atlético Paranaense e  Seleção Brasileira  

14/05/1929    Fundação do América Futebol Clube em Três Rios - RJ

18/05/1929    A FIFA escolhe o Uruguai para a Copa do Mundo

23/08/1929    Nascimento de Zoltan Czibor,   que, junto com  Sandor Cócsis, Ferenc Puskas  integrou um dos maiores times de futebol da história mundial, a Hungria do começo da década de 50.

03/09/1929    Nascimento de Gino Orlando, maior artilheiro do São Paulo F.Clube, foi prefeito do Morumbi por mais de uma década

08/10/1929    Nascimento de Valdir Pereira, Didi, o inventor da folha seca.

22/10/1929    Nascimento de Lev Iashin, Aranha Negra, goleiro russo

28/10/1929    Fundação do Club Sportivo Cerrito, de Montevidéu, que hoje disputa a segunda divisão do futebol uruguaio


HÁ 70 ANOS:

29/01/1939   Nascimento de Edgardo Norberto Andrada, goleiro da seleção argentina e do Vasco da Gama. Excelente arqueiro, entrou para a história por ter levado o milésimo gol de Pelé. É clássica a cena em que Andrada esmurra a grama, logo após ter raspado a bola com a maio esquerda, quase impedindo o gol milésimo.

 05/01/1939    Nascimento de Cláudio Coutinho,técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1978

28/03/1939    Morte de Fausto dos Santos, o Maravilha Negra

15/04/1939    Fundação do Santa Cruz Recreativo Esporte Clube, de Santa Rita, interior da Paraiba. O clube revelou  Mazinho, campeão do mundo de 1994.

14/05/1939    Morte de Oscar Munitoli (9 anos) López, Luis (41 anos) durante partida entre Lanús e Boca, por tiros disparados por um policial

17/10/1939    Nascimento de José Ernâni da Rosa , Tupanzinho, do  Corinthians

07/11/1939    Nascimento de Olegário Tolói de Oliveira, Dudu, do Palmeiras


HÁ 60 ANOS:

30/01/1949    Nascimento de Francisco Jesuíno Avanzi, Chicão, do São Paulo

07/02/1949    Nascimento de Paulo César Carpeggiani, jogador e técnico brasileiro

08/03/1949    Nascimento de Teófilo Cubillas, jogador peruano

24/04/1949    O Linense vence (2 x 1) o Corinthians

26/04/1949    Nascimento de Carlos Bianchi, jogador e técnico argentino

16/06/1949    Nascimento de Paulo Cézar Lima, o  Paulo Cézar Caju

11/07/1949    Nascimento de Emerson Leão, goleiro do Palmeiras e da Seleção Brasileira

03/09/1949    Nascimento de José Néstor Pekerman, técnico argentino

26/09/1949    Nascimento de Clodoaldo Tavares Santana, volante do Santos e da seleção brasileira.


HÁ 50 ANOS:

14/01/1959    Fundação da Associação Cultural Esporte Clube Baraúnas (RN)

18/05/1959    Nascimento de Antônio José da Silva Filho, Biro-Biro, do Corínthians

02/07/1959    Nascimento de Francisco Ernandi Lima da Silva, Mirandinha. Revelado pelo Ferroviário, jogou no  Palmeiras, Santos, Cruzeiro, Corinthians, Fortaleza, Belenenses,  Newcastle e seleção brasileira.

21/07/1959    Fundação do Atlético Progresso Clube, de Mucajaí, Roraima

09/10/1959    Criação do Ibiraçu Esporte Clube, do Espirito Santo


HÁ 40 ANOS:

06/04/1969    Inauguração do Estádio Beira Rio, do Internacional de Porto Alegre (RS)

04/05/1969  Recorde de público no Estádio Mineirão, na partida Atlético MG x Cruzeiro: 123.500 espectadores.

04/06/1969    O Botafogo de Ribeirão Preto vence (1 x 0) o Corinthians

15/06/1969    Nascimento de Oliver Kahn, goleiro alemão escolhido pela Fifa como o melhor jogados da Copa de 2002

19/11/1969    Milésimo gol de Pelé, em uma partida do Santos contra o Vasco

20/11/1969    Fundação da Associação Esportiva Jequié (BA)