16/05/09

Uma resenha: "PASSE DE LETRA, de FLÁVIO CARNEIRO. Por Manuel da Costa Pinto


O texto abaixo foi publicado na coluna Rodapé Literário, da Folha de S. Paulo de 16/05/09, e faz resenha do livro "Passe de Letra", de Flávio Carneiro.
A imagem que ilustra esta postagem foi extraida do Blog Miúdos Criativos, de Portugal, e, lá, adorna poesia sobre futebol, escrita por de uma estudante ginasiana.

A MATÉRIA FUTEBOLÍSTICA DOS SONHOS

Manuel da Costa Pinto

É COMUM apaixonados por literatura e futebol se queixarem de haver poucos romances relevantes sobre o esporte no país pentacampeão do mundo.

Se isso é um fato, não significa que o futebol não tenha adquirido excelência na literatura brasileira. Sem patriotada, pode-se dizer que a melhor expressão do ludopédio (termo pomposo ironizado por Carlos Drummond de Andrade em "A Língua e o Fato") está na crônica, mais genuinamente brasileiro dos gêneros literários.

Há nisso justiça poética: assim como o esporte bretão ganhou graça e malícia em nossos campinhos de várzea, a crônica -forma derivada do "familiar essay", também de extração inglesa- se transformou no veículo ideal para captar o lirismo de uma realidade apequenada e periférica, a poesia das ruas, com suas gírias e seus palavrões.

Nossos grandes cronistas encontraram nos estádios uma tipologia ideal de personagens e uma metáfora do país -e Nelson Rodrigues tirou do trauma da derrota brasileira em 1950 uma expressão, "complexo de vira-latas", que não apenas define as razões daquele fracasso, mas resume um "ethos", um modo irônico de ver as coisas, de rir dos malogros e banalizar as proezas.

Caso mais raro, porém, são cronistas boleiros, aqueles que calçaram chuteiras a sério antes virarem escritores -como acontece com Flávio Carneiro, que acaba de lançar, pela Rocco, "Passe de Letra", reunindo crônicas escritas para o jornal literário "Rascunho", de Curitiba.

Não se trata exatamente de um livro sobre "Futebol e Literatura", como indica o subtítulo, mas de uma prosa literária feita a partir de memórias futebolísticas. Há textos que exploram o paralelo entre o enredo de um romance e o ritmo de uma partida, a figura do narrador e o locutor esportivo -com achados deliciosos, como o aforismo que define o "montinho artilheiro" como um lance que, ao introduzir um elemento de perturbação na ordem natural das coisas, equivale a "pura literatura".

Mas é nas reminiscências, às vezes amargas, que surgem as jogadas mais gingadas desse goiano botafoguense que um dia teve de optar entre o convite para jogar no Guarani (e isso pouco depois de o time de Campinas ter se sagrado campeão brasileiro!) e o projeto de tornar-se escritor e professor de literatura.

Lembranças de peladas épicas, do encontro em Cuba com um garoto que escolheu ser goleiro para não machucar a bola ou da gripe que o impediu de jogar a preliminar de uma partida do Santos de Pelé ("Aquele jogo é apenas um retrato na parede. Mas como dói") são momentos que mostram como o futebol também pode ser, como queria William Shakespeare, a matéria de que são feitos os sonhos.

Um comentário:

  1. Favor entrar em contato comigo. Perdi o seu email.
    Abs,
    Cesar
    cesar.oliveira@livrosdefutebol.com

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