02/07/09

A HISTÓRIA DE UM GOL E SEU AUTOR. TIQUINHO E O "GOL DO TETRA"



"Ele deu a força suficiente para a bola ir para dentro das redes.
Foi aquela festa. Ele era a festa."
(Erasmo Nicácio, técnico de futebol,
falando sobre Tiquinho e o gol mais
célebre da história do Ceará).

O GOL QUE VAMOS contar não se encerra na sua feitura ou na descrição dos lances que o precederam. Por uma série de contingências, seja por conta da sua importância competitiva (rendeu o tetracampeonato estadual ao Ceará), e pelo fato de sua narração ter caído no gosto da torcida, o gol ganhou vida própria, fez-se signo, hino, grito de guerra. Além dessa influência no plano coletivo, o gol marcou indelevelmente a vida de autor: sua entrega obsessiva àqueles segundos mágicos - que se reinventavam a cada vez que a narração radiofônica era reprisada - tornou o protagonista do fato, o artilheiro, em escravo da obra que criou, o gol.
Queremos falar do “Gol do Tetra”, assinalado nos minutos finais da decisão do Campeonato Cearense de 1978. Gol de Tiquinho. O tento rendeu a conquista do tetracampeonato estadual, pelo Ceará. Embora se conceda importância competitiva do gol (um título estadual enfileirado numa quadra), tal inegável mérito já teria se dissipado pelo tempo, dirá alguém com propriedade. Um gol construído com discrição plástica. Mais do que a beleza ou importância, uma sequência de acontecimentos tornou o “Gol do Tetra” uma uma entidade, um instituto.
Começou que o gol teve a felicidade de ser contado de modo épico e essencialmente correto pelo narrador Gomes Farias. Na voz de Gomes Farias o gol já nasceu histórico, legendário. Talvez um dos mais felizes resultados do casamento entre o futebol e o rádio.
Deu-se então que a narração recebeu franca e aberta acolhida por sua torcida. Como em um roteiro bem desenhado, mais tarde veio a notícia do desaparecimento do registro em vídeo do feito. O sentimento de falta, a sensação de perda da prova da conquista coletiva, fez com fosse valorizada mais e mais a narração, já indelevelmente retida na memória do torcedor, entoada por multidões e amplificada nos altofalantes do Castelão. Nunca um gol teve a capacidade de influir tanto e tanto na alma de uma torcida e no jeito de se gostar de um time. Qualquer cearense que acompanhe futebol, goste ou não goste do Ceará Sporting Club sabe o que é o “gol do tetra”. Anote o tempo verbal: O que "é", e não o que "foi". Um gol que se refaz, se reinventa e se reproduz quando vem à lembrança o time do Ceará.
Quem foi Tiquinho. Onofre Aluísio Batista nasceu no Rio de Janeiro em 1957. Iniciou sua carreira no dente de leite do Botafogo; aos dezesseis anos, em 1973, foi tricampeão estadual juvenil. Conquistou, pela seleção brasileira de novos, a Medalha de Ouro no Panamericano do México, em 1975. No ano seguinte, papou o Torneio Pré-Olímpico. Ganhou o Torneio Mundial Oficial Juvenil, em Croix, na França, quando o Botafogo venceu o Dynamo de Kiev por 2x0, com dois gols seus, feitos na prorrogação. Além de Botafogo e Ceará, jogou ainda no Rio Negro de Manaus, Treze de Campina Grande, Nacional de Manaus, Ferroviária de Araraquara e Fortaleza. Detém a primazia de ser o autor do primeiro gol no Estádio Almeidão, do Botafogo da Paraíba, em jogo vencido pelo homônimo carioca.
Graças ao bom relacionamento que reinava entre as diretorias do Ceará e do Botafogo, Tiquinho foi para o Mais Querido, mas sob empréstimo, já que o técnico da Estrela Solitária, Mario Zagallo se interessava em mantê-lo no General Severiano. O pai de Tiquinho, Sabará, destacou-se como jogador do Vasco da Gama e da Seleção Brasileira, nos anos 50 e 60. Diz-se que Tiquinho não seguiu melhor carreira no Botafogo por conta da sua estrutura franzina, condição física que lhe fez surgir o apelido, dado pelas enfermeiras que o assistiram no seu nascimento, uma gestação de sete meses. Foi um rápido e habilidoso ponta-esquerda.
Chegou ao Ceará no ano do Tetra, em 1978. Sua trajetória de feitos marcantes (gols na prorrogação, gol na estréia do Estádio Almeidão) o encaminhou para mais um marco: Um gol aos 44 do segundo tempo, contra o Fortaleza. Num momento em que o desejo do Tetracampeonato se esvaia, o gol da vitória o alçou à condição de herói.
O tempo passou e a curta carreira de jogador de futebol chegou ao fim para Tiquinho. Não guardou dinheiro e não soube enfrentar o fim da carreira. A falta da bola lhe causou desencanto. "Sair do palco é o pior momento do artista", expressão utilizada por Sérgio Redes em artigo sobre Tiquinho. Redes invoca frase de Tostão que sintetiza o que é abandonar os gramados, o jogo da bola: "Passei 21 anos longe do futebol. Fui estudar Medicina, mas quando meu inconsciente se manifestava eu sonhava que estava fazendo gols. Aprendi a conviver com o passado com o auxílio da psicanálise”. Vítima da prática comum de compartilhamento de seringas e agulhas entre jogadores de futebol, conduta vezeira até o início dos anos oitenta, Tiquinho contraiu hepatite C, doença que, associada ao consumo excessivo de álcool, lhe causou agravos sérios ao organismo. Entregou-se à bebida e agarrou-se com todas as forças ao brilho do feito histórico, fazendo do gol do tetra sua obsessão. Ao ponto de, após uma missa em homenagem ao Ceará, ter pedido o microfone para narrar o seu gol, ou melhor recitar o gol imortalizado na narração de Gomes Farias. Fazia isso incessantemente, sentia a necessidade imperiosa de vivenciar o feito, revivê-lo. Nicolau Araújo, do Jornal “O Povo”, de Fortaleza, em artigo que bem analisa o fenômeno Tiquinho, captou os seus sentimentos, quando o ex-atleta lhe confidenciou, enquanto recordava mais uma vez a façanha: “Ouço a torcida a todo instante [sussurrou o barulho da multidão]. Viu, é assim que acontece na minha cabeça”. De uma confissão assim, veio a síntese alcançada por Nicolau Araujo que resume a trajetória de um ídolo e seu gol: “Naquele instante entendi que a euforia do tetra agora lhe era assombração. Aprisionou-lhe a alma na eternidade de alguns segundos”.

Clique aqui para ver "Gol do Tetra", com narração de Gomes Farias.

A ficha técnica do jogo:
Ceará 1 x 0 Fortaleza
Estádio do Castelão. 20 de dezembro de 1978.
Árbitro: Luís Carlos Félix (RJ). Assistentes: Luís Vieira Vila Nova e Manuel Araújo (CE).
Ceará: Sérgio Gomes; Júlio, Artur, Pedro Basílio e Dodô; Edmar, Amilton Melo e Erasmo; Jangada, Ivanir e Tiquinho. Técnico: Moésio Gomes.
Fortaleza: Lulinha, Pepeta, Celso, Rodrigues Chevrolet e Dudé; Otávio Souto; Bibi, Lucinho e Netinho; Geraldino Saravá e Da Costa. Técnico: Moacir Menezes.Renda - R$ 1.576.803,00. Público - 47.340 pagantes.
Gol - Tiquinho, aos 44 do segundo tempo.

Um comentário:

  1. Grande texto! Grande postagem! GIGANTE Tiquinho.
    Diz a lenda que após o jogo, ninguém mais faria gol em tetras pelo Ceará... resultado, Ceará foi tetra mais duas vezes e nos 4 jogos, não houve gols!

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