02/08/09

JORNALISMO ESPORTIVO: OS GOLS CONTRA DA FOLHA DE S.PAULO




Uma das melhores histórias sobre jornalismo e futebol é contada por Lima Duarte, e trata de uma audiência do vice-governador de São Paulo, Porfírio da Paz com o Presidente da República, Juscelino Kubitschek, em 1959. O governador Adhemar de Barros viajara para a Bolívia para tratar da importação do gás boliviano e o vice-governador, autor do hino do SPFC, um tricolor mais do que apaixonado, foi destacado para a missão governamental.
Iniciada a audiência, Juscelino pergunta ao vice-governador:
- E como está São Paulo, governador?
- Vai mal, Senhor Presidente. Perdemos para a Portuguesa de Desportos, dois a zero, um vexame...
Juscelino interrompe, com elegância:
- Estou falando do Estado, governador...
Porfírio, que só pensava em futebol, não entendeu o aparte e pensou que o presidente falava do estádio, ou seja, do Morumbi, ainda em construção. E lascou essa:
- Será inaugurado no ano que vem, num jogo contra o Benfica. Será o maior estádio particular do mundo!
Impaciente Juscelino tentou contornar:
- Excelência... Mas eu estou falando no Estado, no Estado de São Paulo!
- Olha Doutor Juscelino... Aqueles Mesquitas não estão nem aí com esportes... Eu prefiro mesmo é a Gazeta Esportiva...

Trazida para os dias de hoje e o Caderno de Esportes da Folha de São Paulo seria o jornal que comporia a ultima parte da piada. Resumidamente, o negócio do pessoal de Esportes é assim: colocam um espessante num fato secundário, adensam uma circunstância lateral, entortam uma estatística, e com isso enchem colunas inteiras com um nada informativo. O custo é alto, porque eles têm de se afastar de muita informação relevante para poder sustentar suas doidas lucubrações.
A falta de tino na construção de manchetes é marca registrada daquela redação. Vejam: “Beijo se torna defesa antidoping”. É o caso de um esportista flagrado em exame antidoping, com resultado positivo para cocaína. Fica-se a imaginar que a linha de defesa relatada na matéria teria se tornado prática vezeira, repetida. Entretanto, é só ler o restante do texto e o leitor descobre que a manchete duela com a notícia: A tal defesa é inédita, foi apresentada pela primeira vez na história e tem pouca ou nenhuma credibilidade, na análise de especialistas.
Mais um exemplo das caneladas da redação está na matéria sobre o jogo entre Palmeiras e Santo André, pelo Campeonato Brasileiro. A Folha reduziu o confronto a um embate entre Marcelinho Carioca, atleta do Santo André, de 34 anos, contra nada mais nada menos do que toda a equipe de Palestra Itália. Vejam a delirante síntese: “Palmeiras anula veterano e vence”. A ideia que a manchete passou foi a de que onze jogadores impuseram derrota a um homem. Seguindo nas suas miragens, a redação arremata, com destaque: “Equipe comandada por Jorginho supera Marcelinho”. Na sanha de dobrar a realidade a ilusões oníricas, e forçar epopéias, o jornal exalta “um duelo especial entre dois cerebrais”. Valoriza o derrotado, como que a trazer subliminares lições de moral, e conta que Marcelinho fez “lançamentos e passes milimétricos” de que nada adiantaram. Todo um mundo de representação para mostrar um jogo absolutamente normal, uma ordinária partida de futebol que terminou com resultado de um a zero, vitória do Palmeiras sobre o Marcelinho FC, digo, Santo André EC.
E um merecido cartão amarelo veio da Casa: O ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva comentou as derrapadas do Caderno. Veja a opinião do ombudsman:

“ESTE JORNAL demonstra ser adepto da 'teoria do grande homem', formulada em meados do século 19 pelo historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle. 'A história do mundo não é nada mais do que a biografia de grandes homens', dizia, em sua inabalável admiração por heróis, fossem reis, políticos, militares, poetas ou santos.
Assim, na quarta-feira, ao apresentar a final da Copa do Brasil, a manchete do caderno esportivo foi: 'Ronaldo tenta preencher lacuna em seu currículo'. Para a Folha, o jogo não era entre Corinthians e Internacional, mas entre Ronaldo e seu currículo.
O mais importante não era o time que foi rebaixado da elite do futebol brasileiro no ano passado estar para ganhar um de seus títulos mais importantes. Era se Ronaldo ia colocar na sua lista de conquistas a de um campeonato disputado no Brasil.
Não se dá muito valor ao papel do técnico, dos dirigentes, dos outros jogadores, da torcida, nem se dá atenção às circunstâncias históricas, econômicas, esportivas que levaram o Corinthians ao sucesso. Foi o ‘grande homem’ que venceu. O resto é resto.”

Cachorro faz mal a mulher”. Esta manchete, clássico caso do jornalismo ignaro e leviano, conta do caso de moça que comeu um cachorro quente numa barraquinha pouco confiável e teve de buscar socorro no hospital. Incrível, mas até para perto disso o Caderno de Esportes está se encaminhando. Pois ao tratar do acidente que vitimou Felipe Massa, na Hungria, o pessoal dos esportes, em confronto com o modo correto com que o jornal noticiou o fato na primeira página, investiu-se em mais uma gracinha, desta vez tenebrosa e talvez motivada por sentimento de morbidez. A manchete saiu assim: “Massa é nocauteado em plena pista”. Isso mesmo: o piloto foi nocauteado na pista do Circuito de Hungaroring.
Um milhão de verbos e adjetivos para definir a ação e o resultado de um trauma causado por uma peça acidentalmente desprendida de um carro a 300 km por hora, e a Folha vai buscar um termo prá lá de específico, uma palavra cuja utilização fora do boxe só se justifica quando muito, mas muito bem contextualizada. Tudo bem que nocaute passe a idéia de agravo, de lesão; isso não se discute. Mas é elementar que o termo está usualmente associado a um revés sofrido no plano de uma disputa. Nocaute jamais guarda relação com evento fortuito. Nocaute, isso é primário, comunica-se com derrota, significa um golpe contra o qual a vítima poderia, se tivesse qualidades, se opor. De uma só vez deselegante, apelativo e vulgar. Datena, Ratinho e Márcia Goldsmith (que nos perdoem os citados) têm seus iguais na imprensa escrita. A Folha não merece. Ninguém merece.
Manchetes desinformativas são presença constante. Os exemplos que trouxemos foram pinçados de matérias publicadas no curso de menos de um mês. O último esculacho, sobre o acidente de Felipe Massa, saiu na edição desta semana. Esquecem que são jornalistas, e não rapsodos.

A história de Lima Duarte foi contada no seu programa na Rádio Cultura AM de São Paulo, apresentado das cinco às seis da manhã. Talvez o melhor programa de rádio dos anos 80. Lima Duarte tem um excelente repertório com histórias de futebol.
A matéria sobre o beijo muito louco foi publicada no dia 14/07/09. O jogo entre Palmeiras e Santo André (Eles diriam: Onze homens contra um velho xerife) saiu no dia 19.07.09. A análise do ombudsman deu na edição do dia 05.07.09. Ilustração: cena de Lima Duarte no filme Boleiros, de Ugo Giorgetti.


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